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Friday, June 18, 2010

À minha filha

Hoje acordei com os passarinhos, que aqui cantam a qualquer hora. Na casa ao lado há um grande pinheiro manso, que por sinal, tem sido motivo de desavenças por nos roubar bastante sol da parte da tarde. O pinheiro agora cresceu e está acima dos telhados, dá um tom florestal ao jardim e abriga estes seres maravilhosos - não sei como se chamam - que cantam desalmadamente, em uníssono com o mar e com o vento simultaneamente.

Gravei-os em vídeo.Vai levar algum tempo a descarregar. Oxalá consigam ouvi-los:



E embora este poema de Sophia nada tenha a ver com os pássaros do meu filme, resolvi transcrevê-lo, pois tem muito a ver comigo e aquilo que estou a viver neste momento. Dedico-o à minha filha Luisa, cuja expressão de felicidade aqui na Luz me encanta.



O POEMA

O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Como rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo



Sophia Mello Breyner: De Livro Sexto (1962)

Em vez de poema....leia-se blogue...e adapta-se a mim, que não sei fazer poemas.

Thursday, March 4, 2010

Ultimo trabalho


Tenho pintado pouco, ocupada que estou com tantos afazeres, workshop, atelier, netos, etc.

No outro dia vi uma fotografia num site de fotos que adoro e que é para fotógrafos consagrados - one exposure- e encontrei uma que achei daria um esplêndido quadro , assim eu fosse capaz de o fazer. Pedi ajuda ao meu professor, que deu uma aula sobre o método adoptado neste quadro - fazer elipses direitinhas e não esborratar para fora tem uma tecnica!!

Gosto muito dele....continua com a temática das árvores, mas é mais abstracto e o céu abre-se para a árvore crescer....vou colocá-lo por cima da minha cama, que é de madeira negra e tem um edredon vermelho. Fica lá a matar.



Árvores


Árvores negras que falais ao meu ouvido,
Folhas que não dormis, cheias de febre,
Que adeus é este adeus que me despede
E este pedido sem fim que o vento perde
E esta voz que implora, implora sempre
Sem que ninguém lhe tenha respondido?


Sophia de Mello Breyner Andresen