« A Sra. Saeki levanta a cabeça, mostra-se surpreendida e, após um momento de hesitação, põe a sua mão em cima da minha.
- Deixa-me que te diga que estás a ir demasiado longe com a tua teoria.Tens consciência disso?
Faço sinal que sim.
- Bem sei. Mas as metáforas ajudam a reduzir a distância.
- Mas nem tu, nem eu somos metáforas.
- Claro que não - defendo-me eu. - Mas as metáforas ajudam a eliminar aquilo que nos separa.
Ela esboça um leve sorriso ao olhar para mim.
- Essa deve ser a frase de engate mais rebuscada que alguma vez ouvi na minha vida.»
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« Se calhar, Kafka, o que acontece é que a maioria das pessoas que andam neste mundo não estão empenhadas em ser livres. Limitam-se a pensar que o são. Tudo não passa de uma ilusão. Se fossem realmente livres, a maior pate dessa gente ver-se-ia em palpos de aranha. É bom que tenhas isto em mente. A verdade é que escolhemos não ser livres.»
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« O que vou dizer pode parecer-te muito óbvio, mas a verdade é que só sabemos se as coisas acontecem ou não depois de terem sucedido. Além disso, muitas vezes as coisas não são o que parecem.»
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« Existe um outro mundo, paralelo ao nosso e, até certo ponto, conseguimos penetrar nesse mundo e depois regressar sãos e salvos. Desde que se tenha cuidado. Mas, passando para além de um certo limite, corre-se o risco de perder o norte.»
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« As coisas no exterior são projecções do que tens dentro de ti, e o que tens dentro de ti é uma projecção do que te rodeia. Por isso, quando entras no labirinto exterior que te cerca, estás ao mesmo tempo a penetrar no teu labirinto interior. Uma odisseia perigosa, sem sombra de dúvida.»
in "Kafka à beira-mar" de Haruki Murakami
